Esse artigo é para você, que deseja ir mais longe nos torneios. Se tem essa sede, respire profundamente, pois a leitura será, apesar de longa, muito valiosa!

Dicas de poker é, aparentemente, uma procura muito feita no google.

Suponho que os que pesquisam por tais dicas querem um checklist rápido antes de entrar em um torneio e não um conselho sobre quanto de gorjeta dar para os dealers depois de ganhar um torneio.

Quando pesquisei por mim mesmo “dicas de torneios” nenhum dos resultados foi particularmente fértil, pois a maioria estava errada ou ultrapassada.

Então, decidi amarrar algumas ideias no formato deste artigo e criar 7 dicas estratégicas para ir mais longe nos torneios, para jogadores de todos os níveis.

Vamos lá!

Dica de torneios #1: roube muito, mas não exagere

 “Suba pequeno e muitas vezes”.

Essa frase guiou a estratégia pré-flop dos jogadores regulares de torneios por anos e ainda tem seu valor.

Com antes em jogo, um open-raise de 2.25bbs precisa levar o pote menos que a metade das vezes para ser um aumento imediatamente lucrativo (isso sem incluir o potencial de lucro no pós-flop). Por exemplo:

Jogando um torneio 9 handed, blinds 500/1000 com ante de 100.

Gabriel está no botão  com T4s. A mesa roda em fold e ele sobe para 2.200

Existe 2400 fichas no pote com as blinds e antes e Gabriel está arrsicando 2.200 para levar o pote. Isso significa que – pela fórmula do autoprofit, que é A=bet/(bet+pote) – o open raise precisa passar 47,8% das vezes, para poder ser feito com quaisquer duas cartas de forma lucrativa no longo prazo.

A menos que os blinds sejam agressivos, existe uma chance razoável de eles defenderem 52.2% das mãos. Essa frequência de defesa dos blinds varia de mesa para mesa, porém você deve, de forma geral, esperar que o small blind contra ataque com 10~15% das mãos (geralmente 3betando) e deixar 40% nas costas do big blind.

Se o big blind for tight e estiver foldando Q5s, K7o para seu raise, então abrir com 72o trará um ganho imediato em valor esperado. Isso que nem contamos os potenciais ganhos jogando pós-flop em posição.

Contra um jogador mais fraco, abrir num size baixo e com muita frequência realmente funciona quando estamos jogando em posição.

Nas posições iniciais e intermediárias muitas mãos tem uma decisão fácil entre abrir ou foldar – a maioria dos jogadores abririam um AQo e foldariam um 75o sem hesitar.

Eu aconselharia você esquecer totalmente as tabelas de range quando se trata de ataque pré-flop em posições finais e levar toda sua energia para seus adversários e, então, moldar seu arsenal de ataque (seu range) de acordo com eles.

Contra certos blinds é correto abrir quaisquer duas cartas do botão, porém contra outros, queremos jogar mais tight e apenas com mãos que são jogáveis de certa maneira.

Dica #2: defenda seu big blind com frequência

A linha a seguir será um dos elementos mais importantes a ser extraído deste artigo:

Em torneios, você precisa defender seu big blind com muita frequência, com muita paciência.

Nós aprendemos que um raise baixo pré-flop precisa passar por volta de 50% das vezes para mostrar lucro imediato. Logo, sua função como defensor no big blind é contra atacar essa estratégia, defendendo seu range numa frequência alta, isto é, pagando ou dando raise.

Um fato que nos ajuda a defender mais frequentemente no big blind é que sempre temos uma generosa pot odds.

No exemplo acima do Gabriel, existe 4600 no pote (2400 das blinds e antes e o openraise de 2200). O big blind precisa arriscar 1200 para ver o flop e concorrer a recompensa de 4600. Logo, precisamos de uma mão que tenha apenas 20,6% de equidade contra o range de open-raise do adversário para dar um call lucrativo.

Isso é muito pouco. Mesmo 72o tem mais equidade que isso contra um range padrão de open-raise do botão, pois tem 29,45%. Porém, isso significa que você deveria pagar todas as mãos do big blind? Não. Com certeza não.

Se não existisse um detalhe chamado pós-flop, sim, porém equidade crua é diferente de equidade realizada. Isto é, nós precisamos chegar no showdown com nossa mão, fato que não acontecerá frequentemente com 72o.

Considerando que existem cenários diversos no pós-flop, de acordo com as cartas que caem, é muito difícil, construir um range de defesa perfeita. Porém, nós não precisamos ser perfeitos, precisamos apenas de uma estimativa sólida que nos dê um plano de ação aplicável.

Uma ótima forma de estimar um range de defesa do big blind é montar um range que atinja a frequência que impeça o seu adversário de realizar lucro imediato contra seu open-raise.

Na maioria dos cenários, isso significa defender (3betando ou pagando) com pelo menos 30% das mãos.

Do lado extremo da moeda, Doug Polk é conhecido por defender 100% das mãos no big blind em torneios.

Uma regra geral, especialmente se você não estiver muito familiarizado com ranges pré-flop, é pagar mãos que tem uma certa jogabilidade pós-flop. Isso você descobre pela conectividade e altura das mãos. Quanto mais conectadas estiverem, mais possibilidades teremos (por motivos óbvios).

Se joga com ranges amplos te faz sentir desconfortável, não há problemas em defender menos até que vá se familiarizando com maneiras simples e eficazes de jogar pós-flop.

Nota do Tradutor

Se você sente dificuldades de jogar pós-flop e deseja navegar mais longe nos torneios, dê uma olhada no CEP .

Eu, particularmente, defendo 100% do meu range contra jogadores fracos e foldo a borda do range contra jogadores mais fortes.

Defendendo o big blind em potes multi-way

Potes de múltiplas pessoas são cenários completamente diferentes. Por um lado você tem pote odds ainda melhores, por causa do dinheiro extra do outro defensor. Entretanto, você terá mais dificuldades em realizar sua equidade contra múltiplos jogadores.

Em um pote heads up, acertar um par geralmente te fará vencer o pote. Por exemplo: k6 em um 862 contra o botão é praticamente um mostro. Porém, imagine a mesma situação do k6 em um pote com 4 pessoas – podemos debetar se devemos, inclusive, pagar uma cbet.

Apesar de ter pot odds melhores, você precisará de mãos mais fortes para defender, pois elas precisarão jogar melhor pós-flop e as mais fracas estarão dominadas pelo range de defesa do outro jogador (isto é, se MP abrir e o BU fletar, seu K7o estará contaminado com implied odds reversas, uma vez que o range de flat do BU está cheio de K9, KT, KJ, KQ).

Você deveria pagar com basicamente quais cartas suiteds, devido ao potencial de flushs e com cartas não naipadas que estejam conectadsa.

Em suma: em potes com mais de 2 jogadores você quer ter decisões fáceis e claras. Defender mãos não naipadas com distâncias muito grandes entre si será difícil e é melhor evita-las.

Dica 3: Desconfie de 4bet shoves de 25~40big blinds

Entre 25~40 big blinds é prudente 3betar por blefe mãos levemente piores que as mãos que você defenderia dando call na mesma situação, considerando a posição (e, portanto, o range do vilão).

Torneio da WSOP: 35BB stack efetivo

Você recebe 2 cartas no cut off.
MP abre 2.2bbs e você 3beta para 6.2bbs

Boas 3bets nessa situação incluiriam mãos como k9s, kjo, a7s. Tais mãos tem boas blockers das mãos de valor do adversário e jogar de call tais mãos seria muito loose, quando comparamos a equidade de tais mãos contra o range do adversário e as pot odds necessárias.

Se você for forçado a foldar vs um 4bet com uma mão como K9s aqui, não tem problema, pois você não teria equidade suficiente para dar call. Porém, se você fizesse isso com KQs seria muito pior desperdiçar a equidade de uma mão tão boa jogando de 3bet-fold.

Essa estratégia em particular (de 3betar a borda do range de flat) nesse stack de 25~40bbs é muito efetiva, pois:

  1. eles não conseguem desenvolver um range de 4bet por blefe sem colocar todas as fichas na mesa.
  2. Maximiza a quantidade de mãos que jogamos naquela situação (para entender o motivo, veja a lógica da estratégia pós-flop no CEP).

Contra jogadores fracos, especialmente aqueles passivos que nunca 4betam, mãos como KQs são excelentes 3bets.

Em síntese: escolha boas blockers abaixo do seu range de call para 3betar por blefe contra jogadores acressivos e contra passivos monte um range “linear” de 3bet.

Dica #4: jogando deep stack, 3bet como nos cash games.

As coisas mudam dramaticamente conforme os stacks se tornam mais deeps, conforme vamos jogando mais perto de 100bbs o approach ideal em termos de 3bets se assemelha aos ranges de cash game.

Com stacks maiores seus adversários são mais incentivados a continuar contra suas 3bets, o que torna difícil jogar pós-flop com mãos muito marginais.

Quando você 3beta Q♣J♦ com 35bbs você não tem muitas situações difíceis para se preocupar jogando pós-flop, pois a proporção do stack em relação ao pote já será 2 no flop. Logo, qualquer top pair é uma força genuína – em termos gerais – para investir o restante que ficou para trás. Porém, quando você 3beta a mesma mão 100bbs deep as todas as fichas começam a ir pro meio da mesa com seu par de J, provavelmente sua mão estará em problemas.

Por causa disso, queremos 3betar um range mais polarizado e remover mãos como QJo e ATo com SPRs maiores.

Contra jogadores mais fracos, as vezes é ok 3betar um range linear – mais apostas finas por valor e menos blefes.

Contra um jogador fraco, 100 bbs deep, o objetivo é tentar jogar o máximo de potes em posição, 3betando quaisquer mãos que tenha boa jogabilidade, como JTs, 87s, Q9s e etc.

Ou seja: com stacks maiores queremos 3betar um range linear contra jogadores recreativos, repleto de cartas altas e um range polarizado contra jogadores regulares.

Dica #5: não continue apostando no flop com qualquer mão

Alguns anos atrás, muitos jogadores pensavam menos sobre que boards conectavam com quais ranges. Então, eles cbetavam o range inteiro em todos os flops, porque uma cbet de 50% precisa passar 33,3% para ser lucrativa imediatamente.

Nos dias de hoje os jogadores estão muito mais conscientes sobre como a mecânica dos ranges funcionam e sobre como os ranges interagem com o board e estão dando check-raise de forma muito mais agressiva, logo dar check-raise por blefe se tornou mais comum e o jogo se tornou mais detalhado. As pessoas não tentam blefar cegamente e situações horríveis nos dias de hoje.

Dessa forma, sugiro 4 perguntas para se fazer quando ver um flop:

  • O range de quem acertou mais este flop?
  • Quem tem mais nuts neste flop?
  • Como o range do meu adversário é montado?
  • Como meu range é percebido?

Nós não estamos buscando complexidade, não precisamos ser tão específicos (pois não há tanto tempo assim enquanto estamos jogando). Logo, você pode fazer isso de forma muito simples, de maneira lógica. Por exemplo:

Blinds 50/100, 15,000 de stack efetivo

Você recebe duas cartas no UTG
Você aumenta para 300. Apenas o big blind paga

Flop (650) T 8 6♠
BB da mesa…

A linha de raciocínio de um jogador de torneios nessa mão, geralmente estaria conectada com a mão que teria nessa situação.

Se tivesse AA provavelmente pensaria “preciso proteger meu overpair e extrair valor, então vou apostar”. Se fosse um AK, provavelmente provavelmente decidiria dar mesa e tentar realizar a equidade da mão.

Independentemente do que você tem, você deveria pegar as 4 perguntas e analisar:

P1: O range de quem acertou mais este flop?

O do big blind. Apesar de você ter todos os overpairs que ele não tem, você tem muitas overcards que erraram esse board e poucos top e second pairs. Como o range de flat do big blind se conecta muito mais com esse range, no geral ele terá uma leve vantagem de range.

P2: Quem tem mais nuts?

Seu adversário. Vocês dois tem a mesma quantidade de trincas, porém ele tem todas as sequências, pois defendeu todos os 97o (e você não abriria 97o). Vale ressaltar que um overpair não é uma mão nuts num board seguido, já que quando você colocar 14.7k em um pote de 650 provavelmente estará enfrentando somente trincas+.

P3: Como meu range é percebido pelo meu oponente?

De forma nítida, seu range basicamente é pares e algumas combinações de cartas altas (figuras naipadas, Ats+, Ajo, etc.)

P4: Como o range do meu adversário é percebido?

Essa é uma das questões mais complexas de responder, se você não tiver uma leitura específica do seu adversário, porque as pessoas defendem o big blind muito infrequentemente. Porém, é justo assumir que elas tem uma grande quantidade de mãos de par + draw, muitos top pairs.

Com base em tais respostas, podemos concluir que:

O big blind tem vantagem de nuts, pois tem combinações de sequência que nós não temos, o que nos torna vulneráveis a tomar check-raises e múltiplos ataques em streets futuras. Um jogador inteligente veria isso e puniria nossas cbets dando check-raise com muitas mãos.

A vasta maioria do range de call do big blind vai pagar pelo menos uma aposta. Portanto, é uma ideia muito ruim cbetar sem nada nessa situação. Nós deveríamos simplesmente dar check atrás com algumas mãos que erraram e escolher os blefes com mãos que podemos atacar em múltiplas streets em vários runnouts, como Q♦J♦.

Desde que frequentemente damos check atrás com mãos médias, como T9 ou 9♠8♠ nosso range de check está protegeido e nosso adversário não poderá nos punir aleatoriamente overblefando no turn.

Nesse cenário, conseguimos montar uma articulação estratégia com nosso range, mesmo sem softwares!

Uma vez que você treinou-se a realizar tal movimento do pensamento toda vez que ver um flop, ele levará um segundo ou dois durante o jogo para você traçar seu plano de ação.

Claro, é uma excelente ideia refinar seu jogo passando uma lixa fina com os softwares de apoio entre uma sessão e outra, porém respondendo as perguntas acima você já terá o suficiente para criar saídas lógicas e sólidas em tempo real.

Dica #6: tenha um plano para as decisões futuras

Essa dica anda de mãos dadas com a dica #5. Antes de tomar cada decisão pré-flop, flop, turn e river, é prudente refletir seu plano para os prováveis cenários futuros.

Novamente, isso não significa que você precisa simular cada possível situação futura mentalmente. Isso é inviável in game. Esboce uma ideia geral, mas suficiente das próximas streets.

Vamos voltar para o flop T 8 6♣ e digamos que sua mão é v. Antes de apostar, você poderia se perguntar essas duas novas perguntas:

  • O que eu farei se meu oponente contra atacar?
  • Em que cartas no turn eu vou barrelar?

Ao se perguntar essas duas questões você estará olhando um passo afrente, fato que te ajudará a evitar situações ardilosas.

(Esse é o mínimo. Os melhores do mundo planejam afrente até o river, pensando em como ambos ranges serão afetados por cada possível carta do turn e river, e muito mais).

Nesse exemplo, meu plano provavelmente seria algo ao redor desta linha:

P1: o que eu farei se meu oponente der raise?

Eu foldarei, a menos que seu raise seja muito baixo e eu possa pagar e continuar de forma lucrativa. Essa não é uma textura de board que eu cbetaria com muta frequência, considerando que o range do meu adversário é melhor que o meu. Porém, essa é uma mão que eu escolheria para colocar em meu range de (semi)blefe.

P2: em que cartas do turn vou barrelar?

Vou continuar apostando em cada carta de copas ou no rei como semi blefe, e naturalmente em cada 9 e Q por valor. Pegarei uma free card em bricks totais, sabendo que meu adversário não foldará nenhum 9 ou 8 e ainda assim tenho alguns outs para acertar e ganhar a mão no river.

Dica #7: vamos aprender como jogar heads up

Heads up não é algo que posso te ensinar dentro do enfoque deste artigo, porém, apesar disso, me senti obrigado a dar algo de valor para você. Afinal de contas, é a porta para vencer grandes torneios!

Enquanto a estrutura de premiação varia de cada torneio ou de cada site de poker, o vencedor do torneio sempre ganhará a maior parte do prêmio.

Em um torneio de $20 de buy-in, $10k garantidos, o vencedor ganhará aproximadamente $2500 e o segundo terá algo como $1500. Essa é uma diferença de 50 buy-ins entre o segundo e o primeiro!

Isso por si já é motivo para treinar heads up, uma vez que raramente fazemos heads up em torneios, quando comparada a frequência das outras fases do torneio que jogamos, e quando você chegar lá é muito importante estar pronto para ganhar esse payjump mostrouso.

Então, recomendaria que você treinasse jogar heads up, em limites baixos, para aprender a resolver situações com ranges amplos.

Conclusão das #7 dicas de torneios .

Tais dicas são valiosas e aplicáveis para cada torneio que está jogando e, ao aplica-las, elas te ajudarão a navegar mais longe. Lembre-se que a variância (os ventos) influenciam fortemente a posição dos jogadores nos torneios, portanto ter uma gestão sólida de bankroll é muito importante.

É isso. Espero que este artigo tenha te gerado valor! Até a próxima!

 

Artigo escrito por Mikka Anttonen, para a Upswing em 8 de Maio de 2019.

Traduzido e adaptado por Luigi Soncin, para a ROYALpag.